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Como brasileiros (as) e africanos (as) que vivem ou viveram no Brasil, os associados do ComÁfrica se orgulham do papel que o ilustre brasileiro João Havelange desempenhou para a eliminação do Apartheid nos campos de futebol. |
João Havelange, um brasileiro, Presidente de Honra da FIFA |
ComAfrica.org considera a realização da Copa do Mundo em 2010 na África do Sul, como a oportunidade para ampliação do conhecimento entre os povos de nossos países e de sua aproximação.
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Em encontro com o Instituto Comáfrica no Rio de Janeiro em 13 de setembro de 2007, o Dr. João Havelange relembrou aspectos da solidariedade entre brasileiros e africanos que passam pela história do futebol e ressaltou as perspectivas futuras do desporte na união dos povos. |
João Havelange - Comáfrica -
Encontro de Trabalho –(À direita
Dr. S. Blajberg e Dra. Jennifer Dunjwa Blajberg. À esquerda, Prof. Antonio Carlos Ferrão e Bel. Jorge Carlos da Silva) |
Em 2009, quando a África do Sul sediar a Copa das Confederações, a primeira manifestação que houve no Brasil contra o apartheid estará completando 50 anos.
A história nos ensina que a primeira forma bem sucedida de boicote internacional ao Apartheid foi o boicote esportivo e que este foi impulsionado por aqueles fatos de quase meio século atrás que reuniram brasileiros e sul-africanos.1
Significativamente, hoje, o futebol é um veículo formidável para unir os povos, promover a auto estima e a inclusão social, e ainda mais, para combater o racismo.
A ação de João Havelange no Brasil e no mundo neste quase meio século liderando a transformação do futebol em tal veículo formidável é para nós um exemplo do que consideramos ser a diplomacia cidadã.2
As iniciativas brasileiras e sul-africanas da sociedade civil na área dos desportos, mais especialmente do futebol, constituem um campo de jogo ideal para a promoção do intercâmbio cultural e para apoiar a infância e a juventude de ambos os países a que alcancem seu potencial pleno.
A gestão de João Havelange na presidência da FIFA (1974-1998) representou uma nova era para o futebol mundial. Uma organização internacional não governamental a FIFA tem desde então conseguido estender seu campo de influência por todo o mundo, não somente no âmbito esportivo, então também em outros setores, como o comercial e o social.
A responsabilidade social da FIFA e seu empenho por um mundo melhor estão hoje na ordem do dia.
Em 1976 a South African Football Association foi expulsa da FIFA por praticar o apartheid. Em 1992 após o futebol sul-africano ter sido unificado em moldes não-raciais a SAFA foi readmitida na FIFA. Em outubro de 2003 o ex-presidente sul-africano, Nelson Mandela reconheceu as contribuições do então Presidente da FIFA João Havelange e de seu então Secretário e atual Presidente Joseph Blatter: “Ambos levantaram uma forte voz contra o racismo quando muitos ainda estavam hesitantes”3
O futebol em mais de uma faceta, expandiu-se para regiões inteiras e sua população. Com mais de 200 milhões de jogadores ativos, o futebol une os povos.
As palavras do Dr. João Havelange neste encontro em que se resgataram trajetórias dos povos brasileiro e sul-africano e do Desporto na Integração Social e Cooperação entre os Povos, são aqui reproduzidas como diretrizes para nosso projeto de reconstrução da cooperação internacional através do resgate da memória, da difusão de informação e da revitalização dos espaços públicos. O Instituto ComÁfrica se orgulha de divulgá-las como um testemunho para a geração atual e para as futuras gerações de desportistas - jogadores, aficionados ou torcedores.
Comáfrica: O futebol hoje une os povos, promove a auto estima , a inclusão social, e ainda mais, o seu campo de jogo também é o do combate ao racismo. O senhor que contribuiu imensamente com seu trabalho para tanto, há de se lembrar que faz quase meio século houve no Brasil uma primeira manifestação contra o apartheid, motivada pelo fato de jogadores brasileiros da Portuguesa Santista terem sido vítimas daquele regime em 1959.
O senhor já liderava o futebol brasileiro campeão do mundo de 1958 . Nessa época o senhor já vislumbrava este papel que o futebol poderia desempenhar para um mundo melhor ?
João Havelange: Recordarei que, em 1959, o time da Portuguesa Santista tinha a realizar jogos na África e àquela ocasião, em chegando para cumprir com o compromisso assumido, esse Clube, filiado à Federação Paulista de Futebol e à Confederação Brasileira de Desportos, que tive a honra de presidir, foi impedido de desembarcar na África do Sul, porque tinha em seu plantel homens de cor.
Tendo nascido no Brasil, um país multirracial em que aprendemos desde a mais tenra idade a respeitar os problemas raciais, religiosos e culturais, essa decisão da Federação de Futebol da África do Sul chocou-me profundamente e fiz com que aquela equipe de São Paulo, regressasse imediatamente ao Brasil.
Em minha qualidade de Presidente da CBD, que tinha a responsabilidade de dirigir o futebol, fiz conhecer àquela entidade sul-africana e também às autoridades desportivas do País que, enquanto existisse o "apartheid" , as equipes de qualquer esporte filiado a CBD, estariam impedidas de competir na África do Sul.
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Essa decisão só se modificou com o advento da presença de Nelson Mandela na Presidência daquele País a quem, como Presidente da FIFA, fui prestar minha reverência e minha homenagem demonstrando, assim, o quanto representava para mim, para meu País e para o futebol mundial, a eliminação do "apartheid", na África do Sul. |
A Diplomacia cidadã - Século XX - João Havelange,então Presidente da FIFA e seu Secretário Geral Sepp Blatter,com Nelson Mandela, líder do African National Congress, após sua libertação em 1990, e, Sam Ramsamy, então Presidente do Comitê Olímpico Não-Racial Sul-Africano. |
Comáfrica: O senhor é sempre lembrado como um grande incentivador do desenvolvimento do futebol no continente africano. O que o levou, como brasileiro, a ter esse carinho pela África e que obstáculos o senhor encontrou e superou para levar avante essa maior inclusão da África no futebol mundial?
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João Havelange: Nasci, como afirmo acima, no Brasil no princípio do Século XX, e desde a minha infância aprendi com meus pais que o respeito às pessoas não representava uma obrigação mas sim um dever, e com essa formação sei que, em nosso País, a palavra respeito é de uma importância capital no relacionamento das pessoas e, em especial, com as raças de outros Continentes.
Com esse sentimento, cheguei à Presidência da FIFA e tudo fiz, trabalhando e batalhando para que a África tivesse um caminho aberto pelo desporto; assim a inclusão, pelo futebol, da África e de toda a Ásia tornou-se um fato de respeito e, como tal, uma realidade.
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A Diplomacia cidadã - Século XXI Da esquerda para a direita: César A Braga (Instituto João Havelange); Prof. Antonio Carlos Ferrão, ComÁfrica (Membro do Conselho Consultivo), Dr. João Havelange,Presidente de Honra da FIFA, Dr. Jennifer Dunjwa Blajberg, ComÁfrica (Africanista, Presidente ); Dr. Salomon Blajberg ComÁfrica (Cientista Político, Diretor). |
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Comáfrica: Dr. João, tanto no Brasil como na África do Sul há várias iniciativas que partem da sociedade civil para apoiar a infância e juventude no sentido de alcançarem desenvolvimento pleno através do esporte, particularmente do futebol.
Como o senhor avalia a possibilidade de incremento do intercâmbio cultural entre tais iniciativas, ainda mais em vista da Copa de 2010 na África apresentar a oportunidade para aprofundamento do conhecimento mútuo entre os povos de nossos países e de sua aproximação?
João Havelange: Se devemos ter um respeito ao adulto, maior a nossa obrigação referente à juventude e, desta forma, em chegando a FIFA, em 1974, após 03 anos de um trabalho intenso, conseguimos realizar a I Copa Mundial para jovens de 17 anos. Essa abertura ocorreu, precisamente, na África (Tunísia), em 1977, que representou um grande sucesso.
A continuidade desse trabalho realizado pela FIFA junto à mocidade, principalmente na África, tem sido uma determinação da entidade a benefício do seu desenvolvimento e o entrelaçamento com outros Continentes.
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Comáfrica: O sítio da FIFA apresenta sua gestão como uma Nova Era, destacando sua intensa atividade diplomática4 É inegável que sob sua liderança e inspiração a organização e seus quadros administrativos bem como as massas esportivas de jogadores, aficionados e torcedores, buscam através do futebol contribuir para um mundo melhor. Foi também durante sua gestão que a palavra de ordem do jogo leal e justo – do fair-play – passou para a ordem do dia da FIFA. Que fundamentos lhe ocorreram quando deu inicio a esta perspectiva do esporte, no caso o futebol, para integração das massas esportivas (jogadores, aficionados, torcedores)? Quais os riscos que o Dr. João detectou no desdobramento do sucesso da FIFA ao levar avante esta verdadeira diplomacia cidadã e tal campanha pelo resgate da ética esportiva? |
João Havelange - Comáfrica - Encontro de Trabalho – (Dr. S. Blajberg , Dra. Jennifer Dunjwa Blajberg, e Dr. Flávio W.Lara Prof. Antonio Carlos Ferrão e Bel. Jorge Carlos da Silva e César A. Braga (Inst. João Havelange) |
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João Havelange: Passados 35 anos de minha chegada a FIFA, como Presidente, indiscutivelmente, o que mais me obcecava - com referência ao desenvolvimento – era trabalhar a juventude, por intermédio do futebol. Foi o que fizemos principalmente na África e hoje nos sentimos recompensados com o sucesso advindo dessa tarefa, nos demonstrando que pelo futebol podemos chegar à juventude lhe trazendo um bem maior que é o seu desenvolvimento, o respeito de outras raças e povos, bem como uma evolução importante dentro do mundo em que vivemos.
| O futebol individualmente faz o jovem aprender a ser correto, leal, respeitador e lhe faz conhecer a importância do "Fair Play". Esse modo de agir foi uma das facetas do trabalho da FIFA, por suas Comissões, em todo o Continente Africano, favorecendo uma juventude carente que hoje demonstra, com sua dedicação e esforço, a sua grandeza e respeitabilidade. |
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Comáfrica: Fazem mais de cem anos que o Brasil e a África do Sul se enfrentaram pela primeira vez no futebol - eram equipes marcadas pela presença exclusiva de brancos.
Como relembramos no começo desta entrevista , o futebol levou a que brasileiros e sul-africanos se manifestassem de tal forma contra o apartheid esportivo contribuindo para se deslanchasse o boicote esportivo àquele regime.
Os povos do Brasil e da África do Sul hoje tem muitas coisas em comum para buscar um mundo melhor e o futebol sem dúvida aproxima nossos povos. Há times na África do Sul com o nome de Vasco, Santos e até um time cujo apelido é The Brazilians. Um técnico brasileiro campeão do mundo que iniciou sua carreira em Gana hoje conduz o time da casa para a Copa.
Qual sua visão sobre como o povo brasileiro pode contribuir para abrilhantar ainda mais o sucesso da Copa de 2010 na África do Sul e enfim de uma Copa de 2014 no Brasil, produzindo também um legado de contribuições para o desenvolvimento esportivo e social?
João Havelange: Sem dúvida nenhuma, pela sua formação os desportistas da África do Sul e do Brasil têm muito em comum, uma vez que aprenderam antes de tudo a respeitar os princípios da vida e, com isso, os seus adversários.
Dentro de mais alguns anos, estaremos assistindo na África do Sul, a realização da I Copa do Mundo em Continente Africano, que será um marco, um exemplo e um valor de trabalho, de organização e de dignidade. Com orgulho é que o Brasil, pelos seus jogadores, se associarão a esse grande País que é a África do Sul, ao momento da inauguração desse certame.
Estamos certos de que o mundo inteiro desportivo aplaudirá de pé essa competição pois para ela prevemos um grande sucesso.
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Para encerrar só tenho um pensamento e um desejo – é o de poder assistir, para meu orgulho e felicidade, a Copa do Mundo na África do Sul, em 2010, que será um marco triunfal para o futebol mundial.

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João Havelange, Brasil, Presidente da FIFA, 1974 -1998. |
Nelson Mandela, Ex-Presidente da África do Sul, como membro da Delegação da Candidatura sul-africana à Copa do Mundo de 2010, comemora em 2004 a escolha de seu país para sediar a competição |
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