DIPLOMACIA CIDADÃ
RESUMO:
Diplomacia cidadã, diplomacia da cidadania, diplomacia do cidadão, dos cidadãos, diplomacia de povo para povo, “diplomacia não governamental”, estes são conceitos recentes no universo da ciência política e das relações internacionais, a sua prática, porém, conforme ilustra o Diretor de Relações Internacionais do Instituto Comáfrica, o cientista político Salomon Blajberg, já vem de longe, relacionando-se ao surgimento do espaço público internacional nos séculos XIX e XX que adquire características transnacionais no século XXI. A História da luta antiapartheid no mundo e no Brasil mostra que na prática esta diplomacia já existe há muito tempo, porém, muitas vezes, sem troca de notas verbais, como é costumeiro na diplomacia convencional. A “política externa dos de baixo” não é uma novidade ela é a diplomacia cada vez mais verbalizada que assessora a sociedade civil “dos de baixo”, na formulação e execução da política externa como política pública. Comafrica.org está aberto na área da Diplomacia Cidadã, ou seja, a diplomacia que assessora a sociedade civil “dos de baixo” a estabelecer parcerias com outras instituições de pesquisa, ensino e demais organizações com o objetivo de reconstruir a cooperação internacional através do resgate da memória, da difusão de informação e da revitalização dos espaços públicos, criando um espaço para cooperação com a África no Rio de Janeiro.

por Salomon Blajberg*

Na década de 1980, face às despudoradas evasivas da nossa diplomacia brasileira com respeito às relações do Brasil com o Estado aparteísta da África do Sul1 parecia utópico pensar que algum dia mecanismos formais de participação da sociedade civil na elaboração, execução e acompanhamento da política externa brasileira pudessem ser criados, algo que só recentemente começa a avançar nas casas legislativas do país.

A primeira manifestação que houve no Brasil contra o apartheid foi em 1959 - jogadores brasileiros do clube de futebol Portuguesa Santista, que estava em trânsito pela África do Sul para ir disputar jogos em Moçambique, foram vítimas do Apartheid. O então Encarregado de Negócios da Legação Brasileira na Cidade do Cabo, Segundo-Secretário Joaquim de Almeida Serra foi provavelmente o primeiro brasileiro a se manifestar contra o Apartheid sul-africano2 e sua atitude impedindo os jogadores brancos e negros brasileiros de se submeterem ao apartheid fortaleceuo movimento contra o apartheid esportivo na própria África do Sul3 ao mesmo tempo em que por sua atitude dava ao povo brasileiro exemplar lição de como tratar o racismo nas relações internacionais. Era a época dos “anos dourados” do governo de Juscelino Kubitscheck que construía Brasília. O Brasil tinha acabado de ser campeão mundial de futebol com Pelé, Garrincha e a esperança e o patriotismo tinham lugar. Somente quase trinta anos depois o repúdio ao racismo nas relações internacionais ficaria consagrado no texto da Constituição Brasileira de 19884, que entrou para a história como a Constituição Cidadã.

Apesar de na história das relações do Brasil com a África do Sul aparteísta o Itamaraty5 ter agido de forma contida quando se tratava de sancionar o Apartheid, a casa nunca deixou de ter diplomatas como Joaquim de Almeida Serra6 dos quais o povo brasileiro sempre se orgulhará7.

A luta antiapartheid, que deu origem ao Comáfrica, além de ter levado a um movimento de solidariedade internacional cujo modus operandi foi o de um prelúdio a uma bem sucedida articulação internacional de movimentos sociais precursora das formas de atuação em rede dos movimentos sociais globais que procuram se afirmar no século XXI pela globalização dos povos como alternativa à globalização do capital teve também grande impacto no Brasil.

Um dos principais resultados desta luta na formulação da política externa como política pública foi o fato acima mencionado, de que foi consagrado o repúdio ao racismo entre os princípios fundamentais que regem as relações internacionais do país na Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988.

Os processos que levaram a CMCR – Conferência Mundial contra o Racismo em 2001 em Durban, África do Sul sob a égide da ONU guardam estreita vinculação com a luta antiapartheid e são também a continuidade de todo um processo de diplomacia cidadã e de mobilização não-governamental – “política externa dos de baixo” que vem desde o século XIX, tendo suas raízes nos movimentos abolicionistas, pan-africanistas, pelo fim do colonialismo, pelos direitos civis e contra o racismo e a intolerância.

A Diplomacia Cidadã, ou seja, a diplomacia que assessora a sociedade civil “dos de baixo”8, na formulação e execução da política externa como política pública – a Política Externa “dos de baixo”, portanto, não é uma novidade.
No Brasil, aos exemplos citados na página inicial do sítio www.comafrica.org9, como os da entrada do Brasil na II Guerra Mundial, da campanha do petróleo e nosso e da luta antiapartheid soma-se na década dos 90 a diplomacia cidadã da luta contra o racismo em escala pan-americana e com seu conseqüente desdobramento internacional.

Apesar de as resoluções da Conferencia de Durban terem sido suaves com referencia às reparações ou indenizações compensatórias pela escravidão, o seu desdobramento internacional permitiu que no Brasil se fortalecesse a militância por políticas públicas compensatórias que dão o tom à atual discussão presente nos veículos de comunicação e no Congresso Nacional sobre políticas de ação afirmativa (“cotas para afro-descendentes”) como compensação pela escravidão.
Isto constitui mais uma vez um exemplo concreto de como a política externa pensada como política pública pode ter desdobramentos internos de longo alcance.
Outra área em que a diplomacia cidadã tem podido atuar, tem sido através dos níveis municipais e estaduais, considerados no âmbito do estudo das RI como níveis subnacionais e o contato mais próximo entre a sociedade civil local ou estadual com os respectivos níveis de governo também facilita a formulação da política externa subnacional como política pública. No caso municipal um exemplo antigo e tradicional é o de geminação de cidades, e o apoio municipal a iniciativas internacionais congregando a sociedade civil internacionalmente. No plano estadual, lembramos aqui de posicionamentos que contribuíram para o reconhecimento dos movimentos de libertação nacional no Brasil como sujeitos de direito internacional, como foi o caso do Projeto de Lei que concedeu o título de Cidadão Benemérito do Estado do Rio de Janeiro a Nelson Mandela em 1985, apresentado pelo então Deputado Alexandre Farah do PDT-RJ10 e a posterior concessão pela FAPERJ em 1986 de uma Bolsa para treinamento no Brasil, em mediação lingüística PortuguêsóInglês, de um quadro técnico do ANC então no exílio em Angola, ambos projetos também subsidiados pelo Comáfrica e pela IURI-Ineafric11.

Como resultado do crescente interesse da sociedade civil pela sua participação na formulação da política externa, certos mecanismos começam a ganhar espaço como foi o caso da Conferência Nacional em 2001 para preparação da posição do Brasil na CMCR12.

No século XXI a par da transnacionalização levada a efeito pelos movimentos de capitais e de pessoas, pela mercantilização da cultura e pelos desportos, vemos um espaço público transnacional se constituir onde a diplomacia cidadã, mais do que um supletivo não-governamental para políticas externas de estados nacionais ou de estados estrangeiros, busca a unidade de ação transfronteira para garantir os direitos humanos e civis dos povos que efetivamente representa.

Nelson Mandela em 1/11/2006 ao aceitar o Prêmio Embaixador de Consciência que lhe foi conferido pela Anistia Internacional13 disse: “As pessoas que vivem sumidas na pobreza são as que têm menos acesso a esse poder que lhes permitiria forjar políticas, forjar seu futuro. Mas tem direito a se expressar. Não devem ser obrigadas a permanecerem sentadas, em silêncio, enquanto o “desenvolvimento” é propagado ao seu redor e as suas custas.”.

Onde a diplomacia convencional falhar, aquelas pessoas terão que recorrer a seu direito de se expressar – poderão forjar sua política externa, seu futuro, através da diplomacia cidadã.

Comafrica.org está aberto na área da Diplomacia Cidadã, ou seja, a diplomacia que assessora a sociedade civil “dos de baixo” a estabelecer parcerias com outras instituições de pesquisa, ensino e demais organizações com o objetivo de reconstruir a cooperação internacional através do resgate da memória, da difusão de informação e da revitalização dos espaços públicos, criando um espaço para cooperação com a África no Rio de Janeiro.

* Cientista Político e Consultor Lingüístico. Ex-Presidente do Comitê Brasileiro de Solidariedade aos Povos da África do Sul e Namíbia. Atualmente Consultor independente e Diretor de Relações Internacionais do Instituto Comafrica.

1 Em 1984 a IURI-Institutos Unificados de Relações Internacionais apresentou ao então Chefe do Depto. da África (DEAF) do Itamaraty, Emb Asdrúbal Ulyssea o “Programa de Estudos e Pesquisas para a Cooperação do Brasil com a África Austral, PROCOOPI—BRASIL/ÁFRICA AUSTRAL “ concebido e em execução pela entidade visando ao intercâmbio com quadros acadêmicos dos movimentos de libertação nacional ANC(Congresso Nacional Africano da África do Sul), SWAPO da Namíbia e do UNIN (Instituto das Nações Unidas para a Namíbia). Verbal e secamente o chefe do DEAF deu seu veredicto ” temos relações com aquele país (nota: a África do Sul aparteísta), nossa linha aérea voa para lá e não podemos abrigar aqui uma quinta coluna.”. O programa apresentado encontra-se publicado emIURI-Estudos Internacionais, Rio de Janeiro, I (1) 1984. p; 93-98 (português e 99 –104 (inglês)

2 Depoimento do então Encarregado de Negócios do Brasil na Cidade do Cabo: Sem aviso prévio, particular ou oficial, viajou para a África do Sul uma equipe de futebol da Portuguesa Santista, para jogar uma partida contra o selecionado de Cape Town. Estava eu na Chancelaria quando da Capitania do Porto me avisaram da chegada da delegação, por navio, e me informaram que os atletas já haviam partido para o local do jogo. Apressei-me o mais que pude e, chegando ao estádio (um campo pequeno, como o do Flamengo dos anos vinte, na rua Paissandu), fui diretamente para o vestiário. Os atletas já uniformizados preparavam-se para entrar em campo quando uma autoridade local gritou: “Os três negros não podem jogar!”. Imediatamente devolvi-lhe o grito, em tom mais alto que o seu: “Pois nenhum jogador entrará em campo!”. A partida não aconteceu. Temi que as arquibancadas desabassem, o que, graças a Deus, também não aconteceu.
Recebi logo depois telegrama do ltamaraty que dizia haver o presidente Kubitschek ordenando que eu fosse elogiado. A emoção foi redobrada, pois lembrei-me do meu avô paterno, Joaquim Serra, destacado abolicionista e de meus pais, que me educaram. Houve protestos americanos contra o apartheid. Comparados, entretanto, com aqueles que Washington faz quando em qualquer país da América Latina se ofendem os direitos humanos, o protesto ianque foi fraco, como se o apartheid não fosse uma das maiores agressões possíveis aos direitos do ser humano. cf artigo de Joaquim de Almeida Serra na Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro . transcrito em http://members.fortunecity.es/barneyconstancio/combate_aos_entreguistas.htm

3 Sobre o movimento contra o apartheid esportivo na África do Sul e o impacto nacional e internacional da vitimização dos jogadores brasileiros cf ALEGI, Peter, Laduma! Soccer, Politics and Society in South Africa, University of Kwazulu-Natal Press , Scottsville, 2004, p.116

4 CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Título I Dos Princípios Fundamentais Art. 4º – A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:...VIII – repúdio ao terrorismo e ao racismo;

5 O Ministério das Relações Exteriores do Brasil é conhecido pelo nome do palácio onde está sediado.

6 Neto de abolicionista, e que concluiu a carriére como embaixador.

7 Mas que foram perseguidos politicamente em tempos mais autoritários como os diplomatas Vinicius de Morais, grande poeta e compositor e Antonio Houaiss grande lexicógrafo e pensador,por exemplo.

8 A sociedade civil entendida como grupos sociais desfavorecidos ou oprimidos, cuja resistência à devastação da globalização desenfreada se organiza e também se globaliza. Nela se reclama um espaço público organizado a serviço da coletividade e não de uma minoria, buscando se transformar os “produtores” e “consumidores” em cidadãos. cf. Houtart, François, Sociedad civil globalizada: ¿la de abajo o la de arriba?at http//www.envio.org.ni/articulo/1081

9 www.comafrica.org/pt/sobre_comafrica.php

10 Numa belíssima cerimônia em 11 de outubro daquele ano, data em que se prestava solidariedade aos presos políticos da África do Sul, uma delegação de alto nível do movimento de libertação ANC ao qual o líder sul-africano pertencia e segue pertencendo, convidada pelo Comáfrica, pelo antigo Instituto de Estudos Africanos - Ineafric e pela ALERJ recebeu aquele título em nome de Mandela, pois ele estava encarcerado; aquela primeira delegação ao Brasil iniciou uma missão de duas semanas de contatos nos mais altos níveis de Governo, fossem estaduais ou municipais como no Rio de Janeiro ou distritais e federais como em Brasília, e junto à sociedade civil nestas duas cidades, impulsionando a militância aqui contra o Apartheid na África do Sul, e não menos, contra o racismo no Brasil.

11 Ver IURI-Estudos Internacionais, Rio de Janeiro, I (1) 1984

12 ver Íntegra do Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Intolerância, resultado da I Conferência Nacional contra o Racismo e a Intolerância. (Carta do Rio) Arquivo pdf que pode ser baixado em http://www.mj.gov.br/sedh/rndh/racismo.html

13 Cf Prêmio Embaixador de Consciência: Palavras de Nelson Mandela http://www.br.amnesty.org/index_noticias.shtml?sh_itm=ed68571c2ca3cbcde91d4e5046e0d8bc

INSTITUTO COMÁFRICA - comAfrica.org
Diretoria de Comunicação
Telefax- Brasil :0-xx-21-2553-5388
Telefax Internacional: + 55-21- 2553-5388
Caixa Postal 15.132
20.155-970 Rio de Janeiro - RJ - Brasil
contacto@comafrica.org