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RESENHA
Bond, Patrick - “Looting Africa: The Economics of Exploitation [A Pilhagem na África - A economia da exploração]” (Brochura), ISBN 1 86914 095 8 pb, University of Kwazulu-Natal Press (África do Sul), 2006 Preço: 160 Randes e ISBN 1 84227 811 0 Pb Zed Books, Londres e Nova Iorque, 2006 xix + 172pp Preço: £12,99.

Autor da Resenha: FlávioWanderley Lara 1

RESUMO:
Patrick Bond, conhecido economista e professor universitário baseado em Durban, África do Sul, ao desvendar os postulantes da economia da exploração que constitui a pilhagem – o saque - na África neste século XXI, abre uma perspectiva otimista sobre os atuais movimentos sociais na África, especialmente na África do Sul, lançando um importante desafio para a análise da resistência da sociedade civil.
Levanta a possibilidade da emergência da “terceira onda” através de novos movimentos sociais mais focados, a exemplo das varias manifestações e movimentos por toda a África, entre outros eventos e programas de conexões de ativistas intra-africanos cada vez mais fortes, trabalhando sobre uma “Auditoria da Ilegitimidade da Dívida” e discute o controvertido papel subimperialista da África do Sul no uso do programa “Nova Parceria para o Desenvolvimento da África” [NEPAD - New Partnership for Africa’s Development] da União Africana para promover o neoliberalismo no Continente Africano em favor das empresas transnacionais.

O livro Looting Africa [“A Pilhagem na África”] de Patrick Bond é uma importante contribuição à análise política do continente visto por dentro, baseada em assertivas de economia política, rica em informações (fatos políticos, dados estatísticos, ponderações) que tratam da reprodução da vida e do capitalismo na África desde as suas formas de acumulação primitiva (ainda coexistentes) até os nossos dias (dados atualizados até 2005) em suas formas mais sofisticadas e nebulosas de subimperialismo e imperialismo nas suas manipulações neoliberais pela drenagem de suas riquezas materiais (recursos minerais e florestais, entre outros, evasão de capital africano) e humanas (evasão de profissionais qualificados [“brain drain”] e migração) por empobrecimento de suas nações e de sua gente. Ou, nas palavras do Prof. Issa Shivji da Universidade de Dar es Salaam, Tanzânia: “O livro de Patrick Bond fornece um sólido quadro teórico, empírico, e analítico ao mostrar e provar que os processos de pilhagem do continente africano, iniciados com o tráfico de escravos, continuam até aos dias atuais”.

Estudiosos, estudantes e ativistas do mundo inteiro, solidários com a luta do povo africano por sua libertação social, econômica e política poderão encontrar na leitura crítica desse trabalho, um importante instrumento para entender a economia-política do continente africano, especialmente sobre aqueles estados-nação da África Subsaariana e particularmente da África do Sul, onde seu autor, Patrick Bond está baseado e engajado através de seu vigoroso trabalho como professor na School of Development Studies da Universidade de KwaZulu-Natal em Durban, onde dirige o Centro para a Sociedade Civil [Centre for Civil Society - CCS] (www.ukzn.ac.za/ccs), sendo também Professor Visitante no Departamento de Ciência Política da Universidade de York, Canadá e autor de vários livros sobre a África do Sul e o Zimbábue, inclusive o “Against Global Apartheid”[Contra o Apartheid Global] editado por Zed Books de Londres.

A visão por dentro da economia política da África e assertivas críticas sobre esse complexo sócio-econômico assumem uma forma didática e consistente, na seqüência de seus capítulos, para a ruptura e quebra de mitos e desinformações sobre as realidades dos povos africanos. Nesse momento crucial para o Brasil, quando as relações Sul-Sul são revigoradas pelas perspectivas de intercambio no Mercosul e particularmente a intensificação das relações internacionais Índia-Brasil-Paises Africanos (especialmente África do Sul), o livro sem dúvida contribui para uma melhor compreensão daquelas realidades.

A obra de Bond quebra a desinformação, mitos, estereótipos, determinismos georeferenciados e reducionismos simplistas como aqueles expressados pelo relatório da “Comissão para África” de Tony Blair que diz ser a África pobre em última análise porque não teria crescido economicamente:
A África é pobre “em última análise, porque sua economia não cresceu” 2.

O professor desvenda também o uso da piora das estatísticas que circula com desenvoltura pela mídia em sua dualidade tendenciosa característica da visão da elite do poder, ainda quando ostensivamente publicadas na progressista revista nova-iorquina The Nation, onde Andrew Rice ao resenhar livros que tratam de África, emite os tradicionais preconceitos:
“Como pode um continente ser assim tão descompassado da marcha para o progresso da humanidade? Todos concordam que os africanos são desesperadamente pobres e tipicamente toleram os governos que são, em graus variados, corruptos e frívolos. A controvérsia é sobre causas e conseqüências. Um grupo - chamemo-lo campo da pobreza em primeiro lugar - acredita que os governos africanos são tão ordinários assim precisamente porque seus países são tão pobres. O outro grupo – o da governança em primeiro lugar – sustenta que os africanos estão empobrecidos porque seus dirigentes os mantêm dessa maneira”.

Além de uma rica referência bibliográfica sobre grandes autores contemporâneos e seus trabalhos sobre o continente africano como Walter Rodney (1972) no seu livro Como a Europa subdesenvolveu a África 3, Paul Zeleza (1993) na publicação do CODESRIA (Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa e Ciências Sociais em África) A Modern Economic History of Africa cobrindo o Século XIX 4-, e Frantz Fanon (1963) no seu livro “Os Condenados da Terra”, Bond reconhece a contribuição de estudiosos, líderes da luta de libertação e militantes sociais como Adebayo Adedeji, Samir Amin, A.M. Babu, Ahmed Ben Bela, Steve Biko, Dennis Brutus, Neville Alexander, Amilcar Cabral, Fantu Cheru, Ashwin Desai, Ruth First, Patrice Lumumba, Samora Machel, Archie Mafeje, Ben Magubane, Guy Mhone, Thandika Mkandawire, Trevor Ngwane, Njoki Njehu, Kwame Nkrumah, Julius Nyerere, Oginga Odinga, Adebayo Olukoshi, Thomas Sankara, Issa Shivji, Aminata Traoré, Ngugi Wa Thiong’o, Harold Wolpe, entre outros, além daqueles fora da África que devotaram suas carreiras à luta contra a exploração capitalista desse continente.
A banalização da África é cuidadosamente desmistificada no ordenamento dos seus capítulos sob uma forma construtiva de uma visão da verdadeira e dura realidade desse continente e a pilhagem de seus povos.

Nos capítulos 1 e 2, por exemplo, trata de pontuar as causas da desigualdade social, do racismo, do patriarcalismo e da pobreza no subdesenvolvimento da África, paradoxalmente agravado mesmo depois da “independência” de suas nações onde “a marcha para o progresso” é cada vez mais distante, dado o processo de instabilidade de seu mercado e volatilidade do movimento do capital financeiro.

Trabalha o paradoxo do “desenvolvimento desigual e combinado” e chama atenção para as estatísticas do crescimento de seu PIB no nível dessas nações, que não computam a fuga de capitais, como não descontam a evasão de recursos humanos, passivos ecológicos atuais e previsíveis se comparadas a um “indicador de desenvolvimento genuíno – IDG”. E segue, nos capítulos 3 e 4, analisando o “mérito da reforma dos mercados tradicionais” em sua voracidade na descapitalização desses países e suas economias onde seus dirigentes e sua elite estão envolvidos em um sistema de poder global sob um formato de integração africana nos circuitos imperiais de comércio, ajuda, finanças e investimento. Trabalha os conceitos sobre a “privatização da atmosfera” e outros recursos ambientais em seu processo de degradação ambiental e da própria reprodução da vida na “reprivatização da reprodução social” através do mercado e o crescimento da violência. Trata das armadilhas do comércio desigual (injusto), das ilusões sobre o “alívio” da dívida externa e do depauperamento das riquezas africanas, inclusive de obras e tesouros arqueológicos.

Analisa nos capítulos 5 e 6 a escalada do militarismo e da repressão, assim como o crescimento in situ do neoliberalismo e seus agentes africanos do apartheid global investidos no papel de dirigentes do tipo "comprador". E trata da controvérsia do subimperialismo sul-africano.

No capítulo 7 abre uma perspectiva otimista sobre os atuais movimentos sociais na África, especialmente na África do Sul lançando um importante desafio para a análise da resistência da sociedade civil – duas visões em sua ambivalência e contradição opondo de um lado o status quo e sua mística:
“… O problema é simples: aquela contemplação aos poderosos, dá como certo que o G8, a Organização Mundial do Comércio, as instituições de Bretton Woods e as elites dos estados do Terceiro Mundo são a solução, não a principal parte do problema”.

Ao citar críticos da campanha “Make Poverty History” (Faça da Pobreza História, campanha que foi feita simultaneamente à Cúpula/Cimeira do G8 em 2005, envolvendo celebridades) a crítica de Bond torna-se ainda mais severa:
“Por ser demasiado dependente de” fazer lobby “, por deixar de dar o domínio da campanha para os movimentos sociais do hemisfério sul, por diluir as demandas acordadas pelos movimentos populares no Fórum Social Mundial e por legitimar a Cúpula/Cimeira do G8, essa campanha estava perdida desde o começo. Nota 10 no quesito ajuda, Nota oito no quesito dívida? Parece mais algo como G8 ganhando da África de oito a zero...”.

E ainda a defesa da causa dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos pela ONU, que em inglês é conhecida pela sigla MDGs - Millennium Development Goals parafraseada como um “major distraction gimmick" ou seja, um grande truque para distração.

Patrick Bond relembra seu livro de 2004, reeditado recentemente em 2006, Talk Left, Walk Right: South Africa’s Frustrated Global Reforms e pondera que...“aquele compromisso oficial piora a pobreza em vez de reduzi-la. E que os burocratas da Organização das Nações Unidas admitem que embora Monterrey, Rodada de Doha e a iniciativa para os Paises Pobres Altamente Endividados sustentam grande promessa para fazerem significantes contribuições para alcançarem as Metas do Milênio, o progresso, então distante, tem sido extremamente lento.’ Assim como todos, Monterrey, Rodada de Doha e a Iniciativa para os Paises Pobres Altamente Endividados mostram, a elite global e o seu compromisso por ajuda, comércio e alívio da dívida são, resumindo, tão reduzidos de mudança progressista, que alcançar os fins das Metas do Milênio é impossível”.

Mas, por outro lado, ultimamente, lembra que os movimentos populares africanos estão se animando e crescendo em suas lutas desde a “primeira onda” das lutas populares e manifestações anti-FMI dos meados dos anos 70 atéos anos 80, podendo ser considerados como precursores do fenômeno contemporâneo do “movimento anti-globalização” alcançando a “segunda onda”, nos anos 90, mais politicamente explícitos e de objetivos mais amplos com protestos em 30 paises, somente em 1991.

Finalmente, levanta a possibilidade da emergência da “terceira onda” através de novos movimentos sociais mais focados, a exemplo das varias manifestações e movimentos por toda a África, como a greve anti-FMI convocada pelo Zambia Congress of Trade Unions com a participação de meio milhão de trabalhadores em 2004, entre outros eventos e programas de conexões de ativistas intra-africanos cada vez mais fortes, da reunião dos membros do Jubileu África, em 2004 na Cidade do Cabo, trabalhando sobre uma ‘Auditoria da Ilegitimidade da Dívida “e o controvertido papel subimperialista da África do Sul no uso do programa” Nova Parceria para o Desenvolvimento da África “[NEPAD - New Partnership for Africa’s Development] da União Africana para promover o neoliberalismo no Continente Africano em favor das empresas transnacionais, quando demandaram”:
• cancelamento pleno e incondicional da dívida total da África;
• reparações e indenizações compensatórias pelos danos causados pela devastação causada pela dívida
• uma suspensão imediata das diretrizes das instituições de Bretton Woods conforme expressas em iniciativa para Países Pobres Muito Endividados {PPME) e Documentos de Estratégias de Redução da Pobreza (DERPs), do programa de ajuste estrutural disfarçado através do NEPAD e de quaisquer outros acordos que não tratem dos interesses fundamentais da maioria empobrecida e da construção de uma África soberana e sustentável; e,
• uma auditoria abrangente para determinar a extensão total e real natureza da dívida ilegítima da África, os pagamentos totais feitos até a data da mesma e o valor devido à África.

Analisa os diversos “Programas para acabar com a Pilhagem”, o espaço para a cooperação das redes e conclui ao analisar o desafio: “da pilhagem à libertação” que “a solução para a pilhagem na África é para se encontrar na própria atividade dos próprios africanos progressistas, nas suas campanhas e declarações, nas suas lutas – às vezes vitoriosas, mas ainda principalmente frustradas – e em seu desejo ardente de uma África finalmente capaz de livrar-se das cadeias de uma economia mundial exploradora e de uma elite do poder que trata o continente com falta de respeito”.

Uma tradução para o idioma português encontra-se em preparação pelo Instituto Comáfrica devendo ser publicada em 2007.

1 Economista, Membro da Diretoria do comAfrica.org, Dr. em Economia do Desenvolvimento tendo sido Professor de Universidades Federais na Região Amazônica e na Cidade do Rio de Janeiro por 21 anos.

2 Citado por Bond a partir de Comissão para a África [Commission for Africa](2005), Our Common Future, Londres, p.13.

3 Rodney, Walter – Como a Europa subdesenvolveu a África, Seara Nova, Lisboa,, 1975. O original em inglês “How Europe Underdeveloped Africa” está na internet em: http://www.marxists.org/subject/africa/rodney-walter/how-europe/

4Zeleza, P. (1993), A Modern Economic History of Africa, Volume 1: The Nineteenth Century, Dakar, CODESRIA

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